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ENTREVISTA: KLAUS MEINE (SCORPIONS)


Uma das bandas mais importantes para a história do rock/metal está comemorando seus 50 anos de estrada em uma turnê, essa banda é o Scorpions, conhecida por diversos hits, como ‘Rock You Like a Hurricane’, ‘Still Loving You’, ‘Dust in the Wind’, e muitos outros. Antes de desembarcar no Brasil para a turnê comemorativa de 50 anos do Scorpions, o vocalista e líder da banda, Klaus Meine, concedeu uma longa e exclusiva entrevista ao #VamosMusicalizar, confira:

Pedro Gianelli: Depois de 50 anos tocando por todo o mundo, o que inspira o Scorpions a criar novas músicas?

Klaus Meine: Eu acho que são os fãs. É uma honra para nós poder tocar para três gerações de pessoas. Isso é muito motivador. Acho que por causa das mídias sociais, há uma nova geração de fãs de rock, e isso é muito divertido, nos faz querer criar novas músicas e continuar tocando.

P.G.: Você disse sobre a nova geração de fãs, como você vê o cenário atual da música? Você acha que essa “cultura dos downloads” realmente afetou o rock n’ roll?

K.M.: Eu não sei... realmente não sei a resposta. Porque você escreve uma música e hoje tem uma nova forma de apresentar sua música para todo o mundo. Você pode escrever uma música como um anônimo, sentar em frente uma câmera e o mundo todo está vendo aquilo. Pode começar a fazer uma carreira com apenas uma música e atingir o mundo todo. É tão diferente hoje... Eu vim da velha escola, onde começamos a tocar em clubes e agora lotamos arenas por todo o mundo. E a nova geração começou a descobrir os vinis de novo. Sabe, com todas essas coisas, Spotify, iTunes, a música está a apenas um clique, você pode ouvir milhões de músicas, mas você não precisa ter todas. Mas quando você tem um álbum, você quer segurar em sua mão, é o seu álbum, você quer escutar ele do início ao fim! E hoje é tudo muito diferente, se você gosta de uma música, você baixa apenas ela, e talvez se esqueça desta canção amanhã. Mas para os verdadeiros fãs, até na nova geração, eles querem acompanhar o artista, saber de tudo, escutar tudo.

P.G.: E como você vê o modo com que a Europa, por exemplo, enxerga a música? Qual é a diferença com o resto do mundo?

K.M.: Em geral, as pessoas costumam reagir da mesma forma, especialmente com o Heavy Metal e Hard Rock. Mas, obviamente, existem algumas diferenças quando você toca na Alemanha, por exemplo, e no Brasil, é algo mais relacionado ao temperamento. Quando você vai em países como Espanha ou Portugal, as pessoas são mais emocionadas do que em outros países. E claro, quando tocamos no Brasil é uma plateia totalmente louca. Tocamos no México há algumas semanas, na Cidade do México, Monterrey e Guadalajara, e é tão incrível o quão poderoso essas pessoas vivem a música e você pode sentir isso do palco. Existem diferenças, mas é no temperamento e na forma que elas mostram suas emoções.

P.G.: Durante as gravações do álbum ‘Blackout’, você perdeu sua voz. Você pensou, naquele momento, que sua carreira estava acabada?

K.M.: Sim, com certeza! Foi há muito tempo, em 1982, quando estávamos gravando as sessões do Blackout, e eu simplesmente não conseguia cantar mais. Eu realmente pensei: ‘Acabou!’, estávamos em um momento muito bom de nossas carreiras e eu pensei que não poderia continuar com a banda mais. Eu estava em uma situação muito difícil, e estava pronto para sair, mas, felizmente, Rudolf [Schenker] (guitarrista), mais do que qualquer um, me fez entrar em um tratamento para ter minha voz de volta. E acho que foi a melhor coisa que aconteceu comigo, porque quando lançamos o Blackout, se tornou um sucesso imediato. Eu sou muito agradecido por isso, pois consigo cantar até hoje, voltando em 1985, no Rock in Rio, e posso cantar no Brasil para vocês, é a melhor coisa da minha vida (risos). Eu nunca vou esquecer o que aconteceu, estamos fazendo a turnê em comemoração aos 50 anos, e é um ótimo momento para agradecer os fãs do Brasil e de todo o mundo por todo o suporte.

P.G.: Você sempre fala muito sobre os fãs, mas sempre vimos histórias de artistas que não tiram fotos ou não assinam algo para os fãs. Como você lida com isso? Você já fez alguma amizade com algum fã?

K.M.: Sim! Sempre podemos ter amizades com os fãs, sempre vejo algo como ‘esse cara, ou essa garota, ou essa criança, é um grande fã’, alguns fãs te seguem por todos os lugares que você vai tocar pelo mundo afora, e você sabe que essa pessoa estará por lá. E algumas vezes você fica próximo com essas pessoas, mas sempre é uma relação de muito respeito, de todos os lados. Deve ser muito chato você tocar para a mesma base sempre, sim, foi como começamos e como todas as bandas começam (risos), mas você sempre quer fazer músicas novas e atingir novas pessoas, conhecer novas pessoas. E você tem que fazer isso bem feito, os fãs do metal querem algo verdadeiro, eles vão ver Metallica, Iron Maiden, AC/DC, Scorpions, eles querem ver você tocando com emoção, com o seu coração, é por isso que eles são fãs dessas bandas. E é por isso que nós ‘detonamos como um furacão’ (risos) [em referência ao hit ‘Rock You Like a Hurricane’], e é estranho olhar para trás e pensar, ‘wow, já são 50 anos! Estamos muito velhos’ (risos), mas quando você vem para nos ver, você não pensa nisso, tocamos com emoção, tocamos músicas atemporais e fazemos você ter um ótimo show, e eu nem preciso cantar as canções (risos), porque o público brasileiro sabe todas as letras e é algo que ainda me arrepia!

P.G.: Eu não sei ao redor do mundo, mas muita gente conhece as bandas por causa de suas baladas. E isso não é diferente com o Scorpions, músicas como ‘Still Loving You’, ‘Dust in the Wind’, ‘Wind of Change’, e muitas outras, e as pessoas não sabem o quão pesado o Scorpions realmente é. Isso te incomoda?

K.M.: As baladas são partes do Scorpions, elas fazem com que o Scorpions seja tão especial, podemos tocar músicas pesadas, como ‘Blackout’, ‘Dynamite’, ou o novo álbum [Return to Forever], e soar como uma banda pesada, e, logo depois, vamos para um lado mais emocional, com músicas como ‘Wind of Change’ e ‘Still Loving You’. Eu vejo que há muitos fãs de Scorpions, das coisas pesadas, que levam as suas namoradas para o show e elas gostam das baladas (risos). E eles podem ficar loucos juntos com a nossa música, é algo que não me incomoda e funciona muito bem (risos).

P.G.: Vocês tiveram alguns problemas com capas de álbuns censuradas, como ‘In Trance’, ‘Lovedrive’, ‘Virgin Killer’, e muitas outras. Quem teve a ideia de criar essas capas?

K.M.: Quando se olha nos créditos do disco Lovedrive, há uma incrível agência de criação de Londres, a Hipgnosis, mas foi um dos caras responsáveis pela agência que trouxe várias ideias, seu nome é Storm Thorgerson, que é um designer fenomenal no Reino Unido, que fez capas para o Led Zeppelin e para o Pink Floyd, como ‘Wish You Were Here’ e ‘Dark Side of the Moon’, e foi um privilégio trabalhar com ele. Quando nós vimos a capa, pensamos que era apenas arte. A capa é algo muito importante para o disco, porque é nela que você vê o que você vai ouvir no disco, é um resumo. Mas algumas vezes funciona, outras não. Algumas vezes querer ser provocativo com a sua música e sua capa funcionam, como ‘Lovedrive’ e ‘Virgin Killer’, que estiveram nos topos de sucesso, mas outras não. Foi um escândalo na época a capa do ‘Virgin Killer’, não víamos problemas na época, mas hoje não nos orgulhamos tanto disso.

P.G.: O que a banda sentiu no momento da prisão de James Kottak [baterista] em 2014. E como está a banda neste momento?

K.M.: Bom, James teve alguns problemas há 2 anos, mas nós tivemos ótimos momentos com ele por mais de 20 anos, e ele é um cara incrível, um baterista louco, não só baterista, mas um “rock n’ roll forever” [em referência à tatuagem de Kottak] louco (risos), mas sabe, ele teve alguns problemas com sua saúde, e em 2015 e 2016 ele tirou um tempo de folga para focar na sua saúde, e Mickey Dee se juntou a nós para a perna americana da turnê, e não tenho que explicar que ele é um excelente baterista, pois passou vários anos no Motörhead, é um cara incrível.

P.G.: Não há dúvidas de que o Scorpions já fez algumas turnês de “despedidas”. Mas está comemorando o aniversário de 50 anos, o último álbum se chama ‘Return to Forever’, é um sinal de que o Scorpions vai durar para sempre?

K.M.: (Risos) Isso seria muito bom para ser verdade (risos)! Sempre deixamos a água correr pelo rio, mas o rio se tornou um mar aberto, nós apenas deixamos rolar e as coisas vão acontecendo e vemos o que a vida traz. Neste momento, estamos na metade da turnê, que acaba no fim do ano, quando terminar, vamos ver o que a vida vai trazer, não há futuro planejado agora, vamos ver o que vai acontecer.

P.G.: E o que os fãs podem esperar para esta turnê no Brasil? Um setlist de clássicos, ou algo do lado B, com o material novo?

K.M.: Tocaremos um setlist bem misturado, com canções dos anos 70, claro, alguns clássicos, com algumas músicas dos nossos últimos discos. É um bom equilíbrio, quero dizer, será um grande show de rock. Queremos que todos tenhamos uma boa noite juntos em São Paulo, Fortaleza e Rio de Janeiro.

P.G.: Klaus, nós abrimos para os fãs enviarem perguntas que eles fariam para você, então, a primeira é: é verdade que Rudolf Schenker é um cara que esconde todos os seus sentimentos ou não?

K.M.: Não, isso não é verdade.

P.G.: De volta a 1985, como foi tocar no Rock in Rio? Como é tocar para 100 mil pessoas, com bandas como o AC/DC? Quais são suas lembranças sobre aquela noite?

Foto: Marc Theis
K.M.: Eu acho que quando você toca na frente de 100 mil pessoas, você fica como: “Uau!” (risos). É algo que você não espera nunca. Foi incrível tocar com bandas como o AC/DC, Queen, e todas aquelas bandas. Tivemos um tempo no Rio, cantando na “Cidade Maravilhosa!”, sem dúvidas foi um dos melhores momentos da carreira do Scorpions. O Rock in Rio, especialmente o primeiro, é algo que você nunca vai esquecer. Lembro de ter hospedado no Copacabana Palace junto com o AC/DC, e ficamos muito naquela praia linda. Desde então, ficamos muito próximos dos caras do AC/DC, até hoje.

P.G.: Depois de 50 anos de carreira, mais de 100 milhões de álbuns vendidos, a primeira banda de Hard Rock da Alemanha, as luzes, a plateia gritando, ainda te deixam nervoso antes dos shows?

K.M.: Claro! Você pode fazer 1 milhão de shows, mas nunca é uma rotina. Cada show é diferente. Você quer sentir a vibe da plateia, do lugar, do país, e pega algumas palavras da língua local, você tenta se conectar, e quer cantar bem. É bom ter experiência, mas todo esse nervosismo faz parte da coisa toda. Mas esse nervoso vai embora na primeira música, quando você vê os rostos das pessoas gostando de você, é como se fosse uma conexão instantânea, você conecta com seus fãs em um minuto. E o nervosismo vai embora, até o próximo dia (risos).

P.G.: É verdade que você foi ao pai de Rudolf e Michael [Schenker] e disse algo como: ‘olá, Sr. Schenker, você poderia me dar a mão do seu filho para se juntar à minha banda?’ (risos)?

K.M.: Sim! É verdade (risos). Isso aconteceu para que o Michael [Schenker] se juntasse à banda, porque ele era uma criança problemática, ele era jovem, e eu era 7 ou 8 anos mais velho que Michael e eu era uma pessoa respeitosa. E aí eu fui até o pai dele para ele ter certeza que o filho estava em boas mãos, que eu ia cuidar dele, que ele estaria seguro quando estivesse comigo no Scorpions (risos).

P.G.: Agora um assunto que não é tão bom para os brasileiros, mas ótimo para os alemães, o jogo entre Brasil e Alemanha pela Copa do Mundo de 2014, o 7x1. Como os alemães viram aquele jogo? Porque foi tão inacreditável para nós!

K.M.: Oh! Pedro, claro que nós ficamos muito felizes e orgulhosos do time alemão quando eles ganharam a Copa do Mundo. Mas foi muito triste ver o Brasil daquele jeito, a imagem daquele jogador brasileiro chorando até hoje não sai da minha cabeça, partiu meu coração. Você quer ver seu time ganhando, mas não quer ver o outro time do jeito que o Brasil estava, aquilo foi demais para mim. Porque nós somos muito próximos dos brasileiros, e você não quer ver aquilo, foi demais. Nós respeitamos muito o Brasil, vocês são uma das melhores nações do futebol, todos amam futebol, assim como na Alemanha, a Eurocopa começou na sexta-feira (10), na França, ainda bem que voltei a tempo dos EUA, e vou poder ver todos os jogos aqui em casa (risos).

P.G.: Você é um grande fã de futebol, certo? Qual é o seu time na Alemanha?

K.M.: Meu time é o Hannover 96. Mas, infelizmente, nós caímos para a Segunda Divisão, foi triste ver nosso time caindo, mas estaremos lá, mesmo na Segunda Divisão, apoiando nosso time, e esperamos que ele volte para a Primeira Divisão muito em breve.

P.G.: Klaus, nós temos um quadro que queremos saber o que o artista está ouvindo. Primeiro, qual novo artista que você não consegue parar de ouvir?

K.M.: Eu escuto muitas bandas novas. Mas uma que eu sou fã, é o Black Country Communion, com o Glenn Hughes. Tem alguma banda interessante brasileira agora?

P.G.: Sim, tem uma banda chamada Veltica, que acho que você realmente vai gostar, um Hard Rock com Blues.

K.M.: Legal, vou anotar aqui e vou ouvir mais tarde!

P.G.: E qual artista/banda antigo que você nunca se cansa de ouvir?

K.M.: Eu nunca me canso de escutar os Beatles. Eu realmente sou um grande fã de Beatles. Eu estive em Berlim na última semana, e Paul McCartney estava tocando lá. Consegui vê-lo no camarim, não sabia se me comportava como um colega de música ou um fã (risos). E também escuto todos os dias o meu amigo Ronnie James Dio, sinto muita falta dele.

Klaus Meine ainda enviou um recado para os fãs brasileiros, que pode ser escutado em: http://bit.ly/klaus-meine-vamosmusicalizar
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