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ENTREVISTA: FERNANDA HAY (OVERDRIVE)


Durante o atual mês – dezembro –, uma banda me chamou muito a atenção, por ter algo totalmente diferente da maioria das bandas que já escutei; algo que lembrava um jazz, mas ao mesmo tempo não era, e ia para o lado do rock, mas sem a simplicidade do rock, com arranjos muito bem elaborados. Essa banda se chama ‘Overdrive’, e é de Curitiba-PR. A banda é composta pelo I-N-C-R-Í-V-E-L guitarrista, Luís Follmann, pelo baixista excepcional, Diego Porres, pela bateria irretocável de Joel Junior, e pelo vocal belíssimo da fortíssima candidata a “diva” das futuras gerações Fernanda Hay.

Com apenas 1 ano de carreira, a Overdrive mistura diversos elementos que fazem com que a banda se torne única. Os poderosos solos de guitarras se completam com a sensualidade imposta no palco pela vocalista. A voz rouca e inesquecível se entrelaça com as batidas fortes do bumbo e com as notas graves e que tocam o fundo do seu cérebro, essa é a Overdrive, uma banda que sem dúvida será uma das maiores bandas brasileiras de rock.

E foi com a Fernanda que conversei – via Skype – sobre essa excelente banda, a Overdrive, sobre projetos, mulheres no rock, e muito mais. Confira:

Pedro Gianelli: A banda foi lançada junto com o primeiro disco, em 2013. A maioria das bandas preferem fazer muitos shows e turnês antes de lançar o primeiro álbum. Por que a Overdrive tomou essa decisão?

Fernanda Hay: Fizemos isso porque queríamos que quando fizéssemos algum show, as pessoas acompanhassem as músicas do CD, e para aquelas que não nos conhecessem, pudessem adquirir o material logo depois do show. Desde o início procuramos compor nossas próprias músicas, nunca pensamos em fazer covers, pois acho isso muito errado, não se deve ganhar um reconhecimento em cima do trabalho de outras pessoas. A arte não é a reprodução daquilo que está pronto, e sim a criação e inserção de suas próprias ideias.

P.G.: E logo no primeiro álbum, vocês têm uma música que com certeza será um de seus hits, ‘Love Tricks’. Lançaram o clipe dela, e hoje é um dos clipes mais assistidos do rock/metal nacional. Foi surpreendente esse sucesso?

F.H.: Sim, foi assustador mas foi muito gostoso. A música ‘Love Tricks’ é a música mais “pop” que nós temos, ela é algo mais dançante, enquanto o disco todo é um pouco mais pesado. Mas foi muito surpreendente, até hoje nós não acreditamos que está com tantas visualizações, porque tem essa pegada meio jazz, e não é um som que as pessoas chamam de “acessível”, tem bastante momentos “virtuosos” (risos). Mas é muito gostoso ver as pessoas cantando aquele refrão que “gruda” (risos) – cantando o refrão da música –.

P.G.: Você tem uma voz bem interessante, bem jazz, ouvindo sua voz consigo lembrar de cantoras como Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Nina Simone, puxando para os tempos atuais, Amy Winehouse. Essa sua identidade vocal foi criada naturalmente, ou muito trabalhada para se tornar parecida com essas cantoras?

F.H.: Poxa, que honra você me comparar com as minhas divas (risos)! Eu escutei muito a Etta James, Ella Fitzgerald, Nina Simone. Mas não foi uma coisa que eu pensei “- Nossa, vamos lá, vamos criar algo desse tipo”. Foi algo natural, porque quando ouvimos muitas coisas do gênero, acabamos a absorver certas coisas. À medida em que vamos experimentando, vamos fazendo parte daquilo. Eu escutei muito essas cantoras, mas ao mesmo tempo, eu gosto muito de vozes mais fortes, como o Bruce Dickinson (Iron Maiden), o Dio (Rainbow, Elf, Black Sabbath).

P.G.: E como foi a criação da banda? A mistura de uma voz ‘jazz’ com uma banda virtuosa e tocar rock.

F.H. Na verdade, eu fui a última a entrar na banda, quem começou a montar a banda foi o Luís (guitarra), na verdade, ele que fez as composições, ele é fantástico! E então ele se reuniu com o Diego (baixo), que também é fora de série. E na época eles tinham outro baterista, que saiu. E foram na Drum Time, escola de bateria do Joel perguntando se ele tinha algum aluno para tocar, e o Joel disse: “- Que aluno que nada! Eu que quero tocar isso!” (risos). E estavam fazendo testes para vocalistas, e eu tinha uma banda cover de Iron Maiden, Dio, Black Sabbath, Metallica, e acho que o Diego viu alguns vídeos dessa banda, e me chamaram para um teste. É até engraçado, porque eles me mandaram um e-mail, e minha caixa de e-mails sempre tem várias coisas, não consigo lidar muito bem com isso. Demorei muito tempo para responder eles. E o interessante é que tinha outro garoto me chamando para uma banda, que eu não me interessei muito, e os dois se chamavam Luís, eu pensei que era a mesma pessoa, fiquei enrolando ele, demorei um ano para responder a banda (risos). Depois que eu já estava na banda que eu descobri que não era o mesmo Luís (risos). Mas no teste, eu me lembro que foi horrível (risos)! Eu nunca cantei tão mal na minha vida, eu estava muito insegura. Pensei: “eu nunca vou entrar”, porque vi que eles eram super músicos, “eu não pertenço a esse nível” (risos). Mas não sei como, eles gostaram (risos). E estamos até hoje. Mas procuramos ser o mais natural possível nas composições e em tudo na banda.

P.G.: A banda tem apenas 1 ano, mas logo depois que vocês lançaram o álbum, foram convidados para abrir para o Yngwie Malmsteen. Como que isso tudo aconteceu?

F.H.: Nossa, foi incrível! Foi um dos primeiros shows da Overdrive. Fizemos um experimento no workshop do Aquiles Priester que teve em Curitiba, em 2013, já tínhamos as músicas e decidimos ver no que ia dar. Logo depois lançamos o disco na Expo Music em São Paulo. E nosso terceiro show foi a abertura para o Yngwie Malmsteen! Um super guitarrista! O público foi incrível, tanto no show quanto depois. E não tenho nem o que dizer do show do Malmsteen, ele é fantástico.

P.G.: Aos 22 anos de idade, como foi sair do conforto de casa, para fazer turnês, não ter uma cama fixa, o desgaste das viagens?

F.H.: Ah, é muito bom! Quando você decide que vai ser músico, de rock ainda, está tudo incluso no pacote (risos).

P.G.: Você é a única mulher da banda, como lidar com aqueles folgados que sempre têm nos shows?

F.H.: (risos) Até hoje não apareceu ninguém assim não. O pessoal respeita muito, são muito carinhosos. Até hoje não tive problema com homem não (risos).

P.G.: E em relação a relacionamentos? Como conseguir essa tarefa complicada de manter um relacionamento mesmo estando na estrada?

F.H.: Eu não sei (risos), eu não tenho um. Mas a partir do momento que isso acontecer, tem que ser com alguém que me apoie, que tenha orgulho da minha profissão, porque se isso não acontecer, não vai dar certo. No relacionamento tem que ter muita confiança, esse é o problema, dizem que namorar músico é fogo por isso (risos), às vezes você vai para estrada, é obvio que a gente conhece muita gente, mas isso não quer dizer que você não terá caráter ou saber lidar com alguém que você prometeu sua fidelidade e seu amor.

P.G.: As mulheres têm essa fama de mandar em tudo, ser a chefona. Mas e na banda, como funciona?

F.H.: (risos) Não, o pessoal confunde muito, acha que é o vocalista que manda em tudo, ainda tem a questão de ser mulher, acham que manda mais. Mas a banda é um time, todo mundo tem voz ativa nela, é muito gostoso, o processo é muito legal. Somos uma família.

P.G.: Quais são suas divas da música? Em todos os estilos e em todas as épocas.

F.H.: Eu gosto muito da Etta James, Nina Simone, Ella Flitzgerald. De vocalistas contemporâneas, gosto muito da Floor Jansen, que agora está no Nightwish, acho ela incrível. Eu amo a Christina Aguilera, falem o que quiser, ela é incrível (risos)!

P.G.: Estamos quase em 2015, como estão os planos da Overdrive para o próximo ano? Novo álbum, contrato no exterior, shows com grandes artistas?

F.H.: 2015 será um ano bem interessante! Com certeza vai ter álbum novo, já está tudo muito encaminhado, estamos quase entrando no estúdio, estamos acabando de escrever as músicas, e logo estaremos lá. Não vou dar uma data, porque depois ficam cobrando (risos), mas até o meio do ano já está pronto. Também tem clipe novo a caminho. Vamos fazer uma turnê legal também, enfim promete esse próximo ano!

P.G.: E como estão os seus planos para o futuro? Você já chegou a cogitar a possibilidade de uma carreira solo? Se isso acontecesse, como seria? No mesmo estilo da Overdrive, ou em um estilo totalmente seu?

F.H.: Eu já pensei em gravar algo solo, não sei se uma carreira solo. Mas acho que apenas gravar e contar com a internet. Meus planos mesmo são com a Overdrive, quero sempre estar com eles, eu amo a banda, não me vejo sem eles. Se eu gravar alguma coisa, seria por uma realização pessoal, tenho muita vontade de gravar as minhas músicas, elas têm uma pegada mais blues, um rock com uma pitada de blues, mas jamais pensar em largar a banda.

P.G.: Cada vez mais vemos essa ascensão das mulheres no rock/metal, tanto na voz, como na guitarra, bateria, ou uma banda completamente feminina. Qual é a dica que você daria para essas mulheres que estão querendo entrar no rock?

F.H.: Sim! Tem muita mulherada realmente incrível! Independentemente de discursos feministas, a mulher conquistou e conquista cada vez mais o seu espaço, não só na música, mas em geral, como no visual, na forma de se portar. E não dar muita bola para esse preconceito que ainda existe, e fazer o quiser, independente do que você pense, desde que pareça certo para você. Então, a dica que eu dou é: não escute os outros, faça o que você acredita. Existe uma frase de um grande mestre para mim: “there is no trying. There is do or do not” (não existe tentar. Existe fazer ou não fazer), que é do Mestre Yoda, claro (risos).

P.G.: Você tocou em um ponto interessante, que é o preconceito. Mas você já recebeu algum tipo de preconceito por ser uma mulher em uma banda totalmente masculina?

F.H.: O tipo de preconceito que chega não é esse de ser uma mulher em uma banda masculina, quanto a isso, o pessoal reage bem. Mas o que chega é uma questão mais conservadora, de você estar no palco, vestir o que você veste, falar o que você fala. Já chorei bastante por causa disso, mas isso nunca me parou. Eu senti a dor ao pensar “- por que não aceitam o que eu faço?”, mas eu percebi que ninguém tem que aceitar o que eu faço, eu tenho que aceitar e acreditar nisso. Se faz sentido para mim, vai fazer sentido para o mundo, e se não fizer, para quem fizer e quem estivem ao meu lado, está legal. Mas se ninguém estiver ao meu lado, também está legal, porque eu estou realizada com o que eu faço. O preconceito que chega é do tipo: “- nossa, ela usa decote!” Mas isso não me afeta mais, um dia essas pessoas vão perceber que o que importa está nas suas atitudes e no amor que está dentro de você.

A vocalista Fernanda Hay deixou um recado para todos os fãs da Overdrive (em vídeo), que pode ser visto AQUI!
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